A Humanidade, Jogos Vorazes e Gil Giardelli

A cética Katniss Everdeen também melhora seu olhar para o mundo :)

Compromissada apenas com minha distração, comecei a ler Jogo Vorazes, trilogia destinada ao público jovem. Não tem vampiro, lobisomem ou seres de dimensões humanas e não humanas vivendo um amor impossível, mas tem lá seu triângulo amoroso. Leitura fácil. Pelo menos, foi o que pensei.

Antes de continuar, eu acredito que aqui não há spoiler, MAS, nunca se sabe [embora eu ainda acho que irei falar BEM pouco do livro]. Contudo, minhas percepções bem podem sinalizar em qual direção vai o enredo.

Já no primeiro livro, a minha distração inocente logo se transformou em incômodo e reflexão. Jogar vidas numa arena, para que se digladiem até a morte, para que, ao no final, o vencedor tenha uma vida privilegiada com comida na despensa, água encanada e energia elétrica e, ainda, garanta um suprimento de alimento extra para a população de sua cidade/distrito?! Nada original?! Para mim, de um horror gritante. Não porque mais um livro traga em suas páginas algo já visto em outras obras, mas porque, de alguma forma, este livro conseguiu me provocar e me sequestrar para lugares, tempos e situações em que isso ocorria e ainda ocorre. 

Não, essa viagem não está lá. Foi alguma parte de mim que resolveu empreendê-la por conta própria. De alguma forma, a leitura despertou em mim uma proximidade com eventos da história da humanidade que antes ocupavam, em mim, um  lugar de aula de história mundial ou noticiário de alguma terra distante.

Li o segundo livro e hoje, pela manhã, terminei a última obra da trilogia. Incomodada. Horrorizada. Descrente. Triste. #chatiada

O meu olhar para o livro não foi sobre o conflito amoroso da mocinha - que nem era tão mocinha - em relação a qual dos dois mocinhos - nem tão mocinhos - mereciam seu amor. Ela própria, Katniss, me levava junto de suas reflexões sobre a miséria humana, que, para mim, é a atração principal da trilogia:

[Nossas] paixões não-louváveis, principalmente pelo poder
[Nossas] carências, que nos levam a ser quem não somos e a buscar todo tipo de distração para suplantar, suprimir ou suprir o vazio que nos habita
[Nosso] senso de justiça, que tende muito mais para a vingança, que para a própria justiça
[Nosso] olhar desumano para o outro
...

Os adjetivos que utilizei anteriormente para descrever meu estado não são ilustrativos. Eu fiquei arrasada. Pensando nas pessoas que são vítimas dessas  atitudes citadas acima - e de outras. Quantos não passaram pelo Coliseu e outras arenas que existiram na Terra? Quantos não morrem ainda, nas mesmas condições - lembrei de um trecho de O Caçador de Pipas, no qual pessoas são apedrejadas, como forma de distração, no intervalos de partidas de jogos? Quantos soldados são enviados para a batalha, para que seu país, seu governante mostre sua soberania sobre outras nações?

Quantas vítimas, inocentes ou não, da paixão de outro ser humano?

Eu sou uma das pessoas mais positivas que conheço. Eu luto muito para que a minha evolução pessoal aconteça, porque acredito mesmo que a mudança começa no indivíduo, de dentro para fora. Só assim podemos mexer com engrenagens maiores, com o mundo. Mas, hoje, esse meu lado se calou. Continuava acreditando em mim. Mas, e os outros? E a grande maioria?

Envolvida ainda nesses questionamentos, minha sobrinha de nove anos me fala de uma colega da escola, que gosta de funk e que, por isso, justifica ela, usa o short da escola bem curtinho, para parecer mais com uma 'funkeira' de verdade. Não quis julgar, mas me perguntei o que fizemos com a inocência das nossas crianças. Saindo de casa, dois meninos discutiam na rua, não sei por qual razão, xingando-se. Quando percebem, acho eu, que não são mais capazes de se ferir com palavrões, passam a dirigir os xingamentos à mãe de cada um. Na minha cabeça, um ponto a menos para a humanidade.

Mentalmente, caminhando, indaguei 'Jesus [e não era uma interjeição; era com o Mestre que eu queria falar], certeza de que ainda temos conserto?!'. 

A angústia me acompanhou ainda por uma parte do caminho. Peguei outra leitura iniciada, mas sem muito entusiasmo, para ler durante o trajeto. E de novo, outra avalanche de emoções aqui. Mas, melhores, que soterraram ou deram uma nova direção para o meu olhar, triste e angustiado por nossa caminhada pela Mãe Terra. 

Muitos conhecem o trabalho do Gil Giardelli, uma das principais vozes das revoluções que acontecem no universo digital e que faz um intercâmbio entre on-line / off line. Eu me presenteei com o livro Você é o que Compartilha dele. No capítulo em que eu estava lendo, ele nos apresenta várias intervenções de pessoas 'comuns' que têm a intenção de melhorar a vida de outras pessoas. Gente que se importa com gente. E que diferença fez conhecer, naquele momento, aquelas histórias! 

Vejam, eu sei da existência dessa mobilização que busca melhorar a vida de outros, por meio de projetos e intervenções inovadoras. Um dos meus trabalhos me mantem em contato com organizações não governamentais e eu vejo o trabalho que existe para tentar tornar nossa sociedade mais equilibrada. Mas, penso que existe alguns momentos - ou vários momentos - em que nossa fé - na gente ou no outro - falha. Hoje, minha fé no outro falhou. Minha fé na capacidade que temos de nos arrepender, de melhorarmos, de nos reinventarmos. Foi triste de ver. Mas, ufa!,  fui resgatada a tempo, antes que me deixasse ser engolida pela descrença.

Acho que demora um bocado ainda. Acho que a caminhada é BEM longa. Mas, acho que todos nós, mais cedo ou mais tarde, cada um em seu próprio tempo, chegaremos ao ponto de entendermos, de fato, o que é  essa tal de humanidade, irmandade, amorosidade. Pelo menos, já começar a caminhar.

PS1 ~ Suzanne Collins ganhou mais uma fã o/
PS2  ~ Não subestimo mais leitura nenhuma: do folheto que recebo na rua, ao romance Sabrina da banca de jornal. Todos podem ser verdadeiros tratados sobre o ser humano!
PS3 ~ a admiração pelo trabalho do Inovador Gil Giardelli aumentou mais um cadinho, nessas primeiras páginas de seu livro
PS4 ~ Já voltei a ser a mesma Gleide de sempre, que bota a maior fé na humanidade e que continua cuidando do próprio jardim, para perfumá-lo e à toda redondeza! ;)

“Parece que já começamos a compreender que, se eu compartilho, não fico sem, mas faço todos ganharem mais. Quando alcançarmos a compreensão de que o amor pelos outros e por si mesmo é a condição da sobrevivência da humanidade, podemos viver na prática a máxima que indica que: quanto mais se dá, mais se recebe.”

|Você é o que você compartilha ~ Gil Giardelli|
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