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Palafitas

Olhando para trás - e às vezes me canso da minha necessidade de querer sempre dar significado a caminhada - percebo que minha vida sempre esteve sustentada por palafitas. Fico me perguntando como aquele madeiramento frágil pode sustentar uma casa, de um ou dois cômodos, com tanta gente dentro? Afinal, palafitas são características de comunidades extremamente carentes e, geralmente, a casa que sustentam abriga famílias numerosas.

Uma casa apoiada em palafitas sempre me pareceu algo prestes a vir abaixo, num eterno balança-mais-não cai. Sempre me pareceu extremamente insegura e frágil. Sempre me passou a sensação de improviso.

Improvisar é uma ação que adotamos em momentos de emergência. Minha vida, 'palafitada' no improviso. 

Imagino que o máximo de felicidade para um morador de uma casa sobre palafitas seja o de mudar-se para uma casa com sustentações firmes e seguras, nada improvisada. Sem risco de desmoronar, de ruir a primeira tempestade. Ou a segunda, terceira, quarta... é, há palafitas que aguentam bem intempéries. Mas, sempre há o medo de que desta vez ela não aguente.

Assim como aqueles que moram em palafitas e desejam mudar-se para uma casa com alicerces fortes, também parece ser nossa jornada. Uma busca por raízes fortes, que nos sustentem em toda caminhada. A angústia é achar que encontramos a terra fértil para enraizar-se e descobrirmos que trata-se de areia fofa.

Essa terra fértil que procuramos é um local interno, pessoal e de muita força criadora e nutritiva. Não vá achar que sua terra boa está lá fora, ok?! Isto é mentira que lhe contaram ou ilusão que você mesmo alimentou.

Encontrar o local ideal para alicerçar nossa casa é uma busca árdua. Ainda mais quando há tantas possibilidades à mão. É respirar fundo e pensar: 'achei!', para logo em seguida ver as primeiras tentativas de fundação afundando. Igualzinho gente! 

Voltando a casa, aquela que é sustentada por palafitas, se adentrarmos por sua única porta, veremos outra coisa. Há muitas pessoas lá dentro. E há os objetos comuns a todos e os pessoais. Tudo junto, misturado, amontoado, sem organização devido ao pouco espaço disponível. E a quantidade de conteúdo sem utilidade que há lá?! Por que ainda está lá? Claro! Você não enxerga, porque está embaixo de muitas coisas que estão à vista; está escondido!

Em uma limpeza mais caprichada ou outra, você acha o caderno da primeira série do filho mais velho que - por milagre, vontade dos pais que querem uma vida diferente para o filho ou porque o Estatuto da Criança e do Adolescente obriga - conseguiu chegar à quinta-série.

Sim. Há muito sobre aquelas palafitas. O trabalho é incessante para, já que o local adequado para uma construção segura ainda não existe, tentar por em ordem o conteúdo que se tem ali. Se formos práticos e organizados, é fácil dar conta da limpeza que deve ser constante. Se formos apegados, ai ai ai, como jogar  fora o papel de bala do primeiro encontro?

Tentando retomar o fio da meada - eu e os clichês! -, me sinto exatamente como a casa modesta, alicerçada sobre palafitas. A casa é pequena e abriga muita gente e muitos objetos. Pareço não dar conta da limpeza. E nem sempre tomo a iniciativa de limpar a casa. Mas, ela, a necessidade de limpar, tem vida própria. Eu me canso muitas vezes. Eu paro muito para descansar e me recuperar para continuar limpando. E tenho a impressão de que um pouco de descanso - não me iludo, ainda haverá muita limpeza a ser feita - acontecerá quando mudar para uma casa com alicerces seguros e fortes, que me darão mais confiança, coragem e sustentação.

Palafitas - Rocha Maia

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